quinta-feira, 3 de dezembro de 2015

Metarmofose

A hermenêutica é algo que sempre me encantou, é tão poética nossa particularidade de sentidos e interpretações que muitas vezes excedemos nossas próprias expectativas ou percepções ao outro, e seguramente vamos nos frustar frente à constatação de que fulano não sente ou se mobiliza como eu. Por isso gosto de olhar as pessoas como poesia, como inspiração, como estranhas a mim. Estranheza poética, o que é estranho é diferente, e o que é diferente causa curiosidade. Gosto de romantizar o caos, mas confesso que tem alguns que fogem à minha capacidade de poeta da sarjeta. Tem outros que se poetizam por si, como a história de uma garota que conhecia há tempos e sempre tive uma queda por ela, mas ela nunca me deu muita bola, então eu me contentava apenas em contemplá-la em sua poesia. Ela tinha o corpo coberto por tatuagens que rimavam com ela, uma em especial, me chamava atenção por ter a forma de um labirinto, que também tinha forma de uma borboleta e  que também tinha a forma da panturrilha dela. Não era o labirinto de Joyce, era algo menos complexo, risonho, simples. Eu pegava a caneta e me abaixava para desenhar caminhos de uma ponta a outra, e mesmo sempre achando a saída de primeira, eu prolongava caminhos mais longos quando na verdade só queria me perder ali e continuar desenhando por todo seu corpo. Ela era uma mulher baixinha, magrinha e careca, andava pelas ruas enrolando seu cigarro de maconha e dançando músicas do gueto, poderia bem ser uma personagem de qualquer livro de Kerouac. Pois veja bem como é a hermenêutica, eu a via como poesia e ela me via como caos.  

terça-feira, 27 de outubro de 2015

Inconstans.antis

Que eu tenho uma queda pela loucura, já não é novidade para mim ou qualquer pessoa que me conheça, o grande problema é quando a loucura tem uma queda por você. Estive dedicando um tempo para meditações e tentando cuidar de mim, tentando evitar contato com tudo que me fazia distanciar de mim: amores, drogas e pensar demais. Não entrei em celibato ou algo do tipo, só andava evitando tudo que durasse mais do que doze horas. Também não fiquei careta, mas mantinha minha sintonia apenas com o álcool, e ainda sim, em doses homeopáticas. A partir daqui, o enredo da história parece se repetir: conheci uma menina em uma dessas noites, não mais tão loucas, e o que tinha prazo de validade de doze horas acabou se estendendo. Ela era linda, interessante, inteligente, eu até diria que ficaria bem na minha cama por dias sem prazo, quiçá na minha vida. Mas ela era também a definição de inconstância, consigo imaginar seu nome nesta mesma descrição do dicionário.  Ela me queria ás vezes, quase nunca, mas sempre deixava um pergaminho de esperança em frente minha porta. Eu o abria, lia, dizia para mim mesma que não a queria mais, mas ao cair da noite lá estava eu batendo em sua porta e ouvindo desculpas, que jamais antes havia escutado, e olha que eu era mestre em desculpas para fugir de relações. Eu virava as costas, virava a dose de whisky, virava a noite em outras cenas, mas quando chegava em casa, lá estava o pergaminho em minha porta e como se o dia passado fosse um borrão, meu coração disparava e eu dizia "hoje não". 

Resiliência.

Há muito que eu não pego este velho caderno e rascunho palavras sobre alguma coisa qualquer. Minha alma adoeceu e já não sentia e nem tinha sentido. Achei este caderno esses dias, debaixo de uma pilha de angustias e ansiedades e sem que percebesse, me vi fazendo uma faxina a fim de achar tudo aquilo que estava perdido ou desaparecido naquela bagunça física e psíquica. A minha própria casa estava um caos, não tinha nada em seu lugar, e quando digo isso, é porque não estavam nem onde costumavam a ficar na bagunça com que eu estava acostumada, era a bagunça da minha bagunça. Hora nenhuma me acamei ou percebi tudo isso acontecendo, quando dei por mim, estava alí buscando coisas que já não existiam mais. Não sei como cheguei a isso, mas lá estava eu rodeada de guimbas, garrafas vazias e minha mais nova fonte de prazer momentâneo; os remédios tarja preta. Eram muitos, de tudo, e acabavam rápido. Ás vezes os estava fumando, os estava bebendo, confundindo cigarro com amitriptilina, whisky com rivotril. Fazia bem, não, fazia dormir, não, fazia não sentir. Mas aqui estou eu, sentada no sofá remendado da sala, fumando um cigarro (nicotina que não é amitriptilina) e olhando para os detalhes da sala, coisas que eu nunca havia reparado, como um quadro que uma moça havia me presenteado com detalhes do meu corpo, eu jamais havia me visto naquela pintura. E não só na pintura, mas em toda casa. Eu estou aqui, me vejo aqui. 

segunda-feira, 28 de abril de 2014

Ensaio sobre a Finitude.

Ultimamente tenho escutado várias pessoas falando sobre o efêmero e o finito, às vezes sem qualquer distinção, às vezes sem qualquer ponto final. Se a finitude é efêmera, destitui-se o sentido da consciência do fim, destitui-se o sentido, o sentir, o ser-finito. O efêmero como algo que passa, torna-se enfermo, angustiante e incompleto. A finitude é poética, ela existe em todos nós, e permite-nos fazer o que quisermos dela, com ela, e para ela. O que morre, não necessariamente passa, e de alguma forma marca nossa existência. E não falo somente da morte física, mas a morte de um sentido, de um sentimento, de um ciclo. Costumam-se realizar rituais de passagens e ressurreições afim de garantir que a finitude seja preservada no infinito metafísico, pois é muito dolorido acreditar que não existe nada antes, nada depois, apenas, tudo durante. Tive que ter várias experiências com o fim, com o efêmero, com a saudade e com a falta, para que pudesse pensar a finitude de maneira positiva e além disso, viver a finitude de maneira leve e saudável. E não digo saudável de uma forma normativa, mas no sentido do que te faz bem. Ironicamente, saúde no latim significa salvação, conservação da vida. É, senão, encantador, pensar que a consciência da finitude é uma maneira saudável de existir; conservar a vida para prolongar o fim. Enquanto isso, para tudo aquilo que já se findou dentro da minha existência finita, ficam as lembranças, as histórias, o aprendizado, e quiçá a falta. Poderia até falar em saudades, mas acredito que ela só exista quando é reciproca, se limitando ao que morre. Resta, então, somente a consciência e o sentimento de falta, de vazio, sendo, portanto, mais cruel. Porém, não se pode esquecer, é que do vazio que se re-cria, que não limita à incompletude, que pode ser nada, mas também pode ser tudo. O vazio em si é infinito de possibilidades. 

Em memória à Lygia de Castro Lustosa. 

quarta-feira, 15 de janeiro de 2014

Sem Hemingway.

Essa não é só mais uma história de amor, na verdade, o que sinto é poesia. Não sei fazer poesia, mas aprendi a senti-la no cotidiano com aquela mulher, éramos poesia. Tentei escrever algumas palavras para descrever tal relação, mas nem um haikai saiu, também não fiquei surpresa, palavras pareciam muito objetivas para qualquer um de nossos momentos, só éramos boas com palavras na cama, palavras de cama, sacanas. Ela era uma apreciadora das artes, me ensinara a desenhar sensações, esboçar afetos, me incomodar com as incertezas. Mas eu não soube contá-la que eu já não gostava tanto dessas incertezas, parecia que tínhamos nos acomodado à isso depois de tanto tempo nos equilibrando sobre uma corda bamba, parecia algo circense. Não nos desgastamos com o tempo, nem desistimos, só nos confundimos com palavras, incertezas e talvez um pouco de lisérgico. Recomendaram a distância, o insistente tempo, além de mais uma temporada fugindo dos sentimentos que, sem perceber, ficavam ali na mochila com a qual eu viajava. Há sempre um pedaço de quem se gosta em qualquer lugar que esteja, e de fato, tinha. Não apenas um pedaço, mas todo um inteiro. Pensei em voltar, mandar cartas ou talvez um pergaminho através do mar, mas não tive coragem, ela parecia ter gostado das incertezas e das minhas confusões assintomáticas. Ela lá e eu do outro lado, e ainda a sentia dentro de mim, essa certeza ela tinha, eu poderia apostar nisso. A esse ponto, o que eu mais gostava na despedida era a possibilidade de retorno. Somos poesia. 

quarta-feira, 21 de agosto de 2013

Todo coração é uma célula revolucionária.

Ainda não era primavera, mas todos os acontecimentos que começavam a vir a tona indicavam que sim. As ruas da cidade estavam tomadas por um enxame de pessoas, o despertar de um silêncio velado por tantos anos. Falavam sobre uma nova geração de jovens que resolveram se livrar da maquiagem de cidadão inerte, ajustado, conformado. Incorporavam a revolução francesa com o aclame de liberté, egalité e fraternité ao se apoiar sobre os diferentes monumentos políticos que silenciavam a cidade. Os grandes líderes do governo tremiam diante de suas varandas blindadas e no legislativo, pichações e intervenções artísticas zombavam do atual esquema de falsa democracia. Ao cair da noite, a força opressora calava canções de paz, com bombas de guerra, e assim começava o conflito que a grande mídia chamaria de vandalismo. Eu chamo de vândalos com armas de borrachas, vândalos com gás lacrimogênio, vândalos com fardas. Em quilômetros de distância podia-se ouvir os estouros, os passos assustados, os rostos cobertos que não queriam ser calados. A multidão dispersada não cansava e voltava a se reunir no dia que se seguia, no mesmo campo de concentração, cercados em todos os lados por policiais farpados. O embate era certeiro, já que eram impedidos de reivindicar o que tinham direito.  As luzes das ruas davam lugar à nuvem de fumaça, ao cinza, à lápide para uma geração que um dia acordou. 

domingo, 11 de agosto de 2013

10 noites sem ela.

Não há nada mais entediante do que estar perto de um casal apaixonado; eles conversam em neologismos e idiomas próprios, se comportam como uma unidade única e para completar, fazem questão ter um comportamento paralelo à toda a teia social de um grupo. Eu tentava ao máximo evitar esse contatos para não me contaminar com essa paixão epidêmica, mas sem que percebesse, já estava doente. Para os fãs de um bom romantismo, Shakespeare coçaria os dedos para escrever sobre este, assim como Sade, Garcia Marquez, e eu. Acordei (há dez dias não conseguia dormir direito), fumei um cigarro em uma única tragada, espiei o relógio, calculei o calendário, olhei para a cama vazia. Vi no papel vazio a única possibilidade de sanar aquele meu vazio. Me senti uma adolescente contando ao querido diário as experiências traumáticas da tão crua existência:  

"Dia 01. Ela se foi. Me deu apenas um beijo na trave e disse que o tempo passaria rápido, que nem o perceberíamos passar por nós. Eu acreditei. 
Dia 02. Sem notícias e sem mulher. A única solução foi beber e fingir que o tempo seria um aliado, eu já não acreditava mais.  
Dia 03. Saudades, já? Não poderia ser possível. Tomei dez gotas de benzodiazepínico para tentar dormir em outra cama que não a dela. Neste dia não sonhei. 
Dia 04. Comecei a pensar em (d)escrever a experiência de passar dez dias sem ela, porém as noites eram as mais longas, as mais difíceis de superar, e eu estava mal acostumada aos seus lençóis, ao seu corpo. Então pelo desafio, tornou-se dez noites sem ela. 
Dia 05. Domingo de chuva e a saudade aumentava, tempo cairo, tempo com ponteiro quebrado dentro de mim. 
Dia 06. Começava a me tornar uma alcoólatra por oportunidade, não tinha nada melhor a se fazer. Não gostava de ficar me queixando de sentimentos que não queriam passar. 
Dia 07. Achava tudo muito chato; bebedeiras, outras mulheres e até mesmo aquela velha rotina de bares e pubs com amigos. Estava em dúvida se eu tinha me tornado sem graça ou se era tudo sem graça sem ela por perto. 
Dia 08. Me ofereci para buscá-la na rodoviária, ela negou. 
Dia 09. Sentei nas escadarias e esperei, afinal já mal dormia mesmo. 
Dia 10. Sobrevivi(e lá estava eu entre seu corpo)."


sábado, 15 de junho de 2013

Um ensaio sobre o coração.

É engraçado pensar no inesperado, que torna-se absurdo por não ter sentido (mas ser sentido) a um primeiro momento; o desespero de manter o controle e com isso, descontrolar-se. Assim funcionava meu coração, afogado em absurdos e que, ainda, insistia em bater mais forte de tempos em tempos. De tanto tempo inerte eu achava que havia atrofiado, mas aquele velho coração de tanto tempo embriagado esquecera-se de sentir; mas não dessa vez. Como um bom começo, a ideia principal era apenas uma boa trepada, mas nós duas sabíamos desde a primeira troca de olhares que seria bem mais do que isso, ela era bem mais interessante do que apenas uma trepada deveria ser, e de repente tudo se acelerou. Éramos nietzscheanas, nada clichê e desconfiávamos de todos aqueles que não possuíam vícios. Tínhamos tendencia ao vício; a paixão era eminente e eu sabia bem. E eu já não queria ir embora quando o Sol nascia e estampava meus olhos com todo o clarão, ela continuava dormindo e eu, continuava. O problema é que aquele meu coração seguia desenfreado; eu, ela e ele. Para aqueles que acreditam em sintonia, eu apresentava sintomas de um coração apaixonado. 

segunda-feira, 29 de abril de 2013

Roleta.

Dizem que é sempre sul em algum lugar e mais uma vez segui em direção às montanhas andinas, carregando apenas aquilo tudo que eu queria esquecer. O tempo passava e eu ainda tinha certeza que as estradas curavam qualquer coisa, eu poderia ouvir os desesperos ficando pra trás junto à trilha de dejetos que caiam do ônibus, estrada afora. Por lá, as coisas funcionavam diferente, eles tinham algo chamado cassino e eu tinha algo chamado vício a qualquer coisa que produza alguma quantidade de endorfina, combinação perigosa, eu sabia. Mas preferia pensar que entendia bem de combinações perigosas e me sentia disposta a entrar em um jogo de sorte, onde a vantagem é sempre da casa; ironicamente, era assim que funcionaram minhas ultimas relações. Sorte no jogo, azar no amor, era como diziam. E depois daquela noite eu sentia que não precisava sentar em lugar nenhum para conhecer alguém, vai que eu me interessasse! Estava feliz em ter aquela sorte de cassino, e mais feliz ainda em torrar cada centavo ganho com bebidas de qualidade; há tempos eu não sabia o que era aquilo. Porém, tudo que é bom é consumido mais depressa, e acabei descobrindo que a sorte funcionava mais ou menos assim também, com ou sem amores. Poderia ter me engraçado com alguém, mas contradizer uma lenda urbana não era algo que tinha passado pela minha cabeça. No fim de algumas semanas lá estava eu de volta às estradas, de volta. Mas dessa vez, sem as bagagens que me pesavam, eram meu pesar. Estava, depois de muito tempo, leve (e sem um centavo no bolso). 

A moça que colecionava pessoas.

A primeira impressão que se tem de alguém é raramente a que fica. Eu a havia reconhecido em uma tarde no parque, eu lia algumas filosofias baratas enquanto ela vendia votos de amor. Entre frases de Sócrates traduzidas por Platão, tudo tornou-se platônico. As trocas de olhares já eram familiares e eu não sabia muito bem me esquivar do charme de bons vendedores, acabava comprando todas aquelas palavras bonitas. Essa não é mais uma história em que eu acabava em alguma cama qualquer; dessa vez, acabei em uma prateleira. Só para colecionadores. Ela era uma moça linda, e ela sabia bem disso, a usava muito bem para artifício de negócios. Eu realmente gostava dela, ela me cativava como poucos. Porém aquele lugar na estante não era tão confortável assim, principalmente por ter que dividir tal espaço com tantos outros que pareciam gostar de ocupar aquele tão estreito pedaço de lembrança. Eu já não gostava de dividir nem mesmo um trago de cigarro, quem diria um coração. E por vezes eu desaparecia, mas sempre voltava com os bolsos cheio de votos e  notava a crescente coleção; todos ali reunidos, sorrindo e fingindo que aquela pequena prateleira - que ficava cada vez mais apertada - era suficiente. Talvez fosse, mas não para mim; que a pouco, havia apagado todos aqueles nomes das minhas paredes, para que não pairassem em um instante que não era o deles. Pairados, parados, guardados do passado em uma vitrine que vendia o presente. Eu acabei preferindo encontrar com aquela bela moça apenas por casualidades, sem transparecer nada que poderia ser negociado. 

segunda-feira, 17 de dezembro de 2012

Um Blues de fim de noite.

O problema de se relacionar com canalhas é que você vai perdendo o romantismo das coisas, torna-se cético e também, um pouco canalha. Eu nunca diria que era uma rotina cultivar esses tipos de relacionamentos, mas eu já era cética, e talvez, um pouco canalha, e sabia bem a intensidade e porque não, a auto-destruição, de estar em uma relação assim. Sabe-se da decepção eminente, mas apaixona-se cegamente. Mas a vantagem de brincar com fogo é que aprende-se a não se queimar, ou pelo menos aprende-se a estancar a dor com mais domínio. Era o que eu fazia de tempos em tempos, quando insistia em me relacionar sobre um precipício. Me diziam que toda mulher tem um canalha de estimação, seja domesticado ou não. Existem até mesmo os canalhas platônicos, que habitam fantasias hollywoodianas e Almodovarianas. Neologismos a parte, eu passava por um momento de incertezas, a ponto de não saber aonde me encontrava; nos limiares do canalhismo ou nos palcos shakespearianos, que de tão romântico torna-se trágico. Aquela história do "pagar para ver" já estava batida, eu já não tinha com o que mais pagar, estava tudo hipotecado em dívidas; do coração até a razão. Dívidas comigo mesmo, que foram se fazendo quando eu me levantava de cada queda, quando implorava ao tempo uma cura, quando descobria que ele nada cura. Ao longo das estradas o meu modo de romancear tornou-se descrente e sempre precisava de linhas para serem preenchidas com um fim. 

segunda-feira, 10 de dezembro de 2012

Semiótica Histérica.

Eu tinha um pedaço de mim teatral, que vivia nos subúrbios da Comédia e da Tragédia. Se dissociava de uma atuação de palco quando aparecia como drama de escadarias. Se perdia entre personas e personagens e me obrigava a achá-lo quando as cortinas fechavam. Me cativava com um olhar de falta, faltava roteiro. E mais uma vez eu descia da minha zona de conforto em busca de saciar seus desejos histéricos, que eu já sabia, nunca seriam saciados por completo; a falta pela falta. Me fazia lembrar de um grande pensador, que falava em mimesis como um movimento de representar a natureza. Porém, conhecendo tão bem esta parte de mim, eu ousava discordar e pensar que era impossível representar algo natural; o natural não poderia ser ensaiado. O teatro é uma verdade feita de máscaras, porém, este pedaço de mim parecia caminhar ao contrário, uma máscara feita de verdades. E por isso que ele sempre se perdia de mim pelas ruas daquela cidade, ele se misturava ao respeitável público e eu já não sabia mais distingui-lo de todos. E na calada da noite, ele voltava na ponta dos pés, suplicando por atenção, por afeto, contando várias verdades de backstage e eu, mais uma vez, me deleitava em todo aquele drama que já o era inerente. E quando o Sol ficava a pino, ele se esvaia por aquelas escadarias em busca de suprir toda aquela angustia de ainda ter o  palco vazio. 

segunda-feira, 26 de novembro de 2012

A Arte de Enganar a Si Mesmo.

Não me viram passar por aqui. Eu não passei por aqui. Eu nunca estive aqui. Me diziam que se você repetir uma mentira várias vezes ela se torna uma verdade. Eu não sinto, eu não sinto, não sinto...eu poderia facilmente acreditar nisso. Eu até apresentava alguns sintomas de aceleração de batimentos cardíacos, de saudade ou de fixação, mas eram apenas comorbidades do meu vazio. Sentava no canto oposto da mesa de bar e me embriagava de sentido, não sinto. Me diziam que o que os olhos não vêem, o coração não sente, embriagava meus olhos com detalhes de fundo. Porém, o que os olhos vêem, eles devoram. A carne de tão fraca me tornava em apenas pele, e eu já não contava mais verdades a mim mesma. Poderia passar noites na companhia de pensamentos insistentes, mas no fim, tomava algumas gotas de algum sonífero e preferia não pensar. A mentira mais comum é aquela que usamos para enganar a nós mesmos e eu insistia em não sentir. Slogans estampavam verdades que eu não queria ver, preferia o conforto do engano. Os olhos que devoravam eram os mesmo que esqueciam. O coração que insistia em não ver, era o mesmo que dilacerava em silencio. Não me viram padecendo. Eu não padeci. Eu nunca padeci. 

segunda-feira, 19 de novembro de 2012

Ode Ao Poeta.

Era fim de tarde daquela efêmera primavera e eu caminhava a passos largos e cambaleantes em direção às escadarias de casa. Eu que não era de guardar detalhes, parei de repente frente a alguns rabiscos no muro que me acompanhava silencioso, eram novos escritos. Alguns esboçavam romances, outros se rebelavam nas próprias palavras e se embaralhavam em incompreensão e alguns poucos me chamaram atenção; poderiam ser meus escritos de outrora. O muro tão silencioso passava a sussurrar respostas por clichês. Um dos escritos dizia: Atrações físicas são comuns, conexões mentais são raras. Me perdi e me achei ao longo do mesmo segundo, acendi um cigarro, pensei e tentei me recordar da última vez que eu havia achado essa conexão. Não havia muito tempo, porém, eram de fato, raras essas pessoas que haviam passado por mim. Lembrei-me de uma pessoa em especial, ela rodeava o limítrofe de todos os meus sentimentos, e no final do dia conseguia ir embora com tanta facilidade. Nunca tivemos a oportunidade de ter algo que beirasse o estável, não por falta de qualquer coisa que o valha, mas pela velha mania de complicar o que poderia ser tão simples. Nossos corpos exalavam atração, a conexão ia além da mental, era neuronal: algo tão complexo que se dava com tanta rapidez e tamanha facilidade. Mas faltava poesia, ela costumava a dizer. Faltava poesia à minha compreensão das coisas. Nunca fui de sair poetizando, mas na verdade, acredito que a poesia só existe em quem a sente. Eu via poesia até no nosso modo ímpar de se odiar. Eu havia tirado aquele resto de noite para pensar nela, misticismos a parte, sentia que ela também fazia o mesmo. Se isso não for poesia, foi apenas incompreensão. 

sexta-feira, 9 de novembro de 2012

Vitium.

A cidade cinza denunciava novos tempos que estavam por vir, o Sol não aparecia há dias e até a pressa dos passos nas calçadas faziam uma sinfonia triste e melancólica. O calor flamejava nos corações vazios e queimava em abstinência de velhos vícios. Os desejos latentes se afloravam junto à palavras perversas. Toda vez que o tempo mudava naquela cidade, acontecimentos de mesmo tom surgiam. Para mim, o cinza havia trazido recaídas, recheado de nostalgia e saudosismo. Eu, que clamava por redenção alguns meses antes, me encontrava em metade vício e metade razão. Nunca fui de optar pela razão ao invés do prazer, alías, tinha pavor dos que faziam isso; mas eu era metade prazer e metade inconsequência. E sabendo que a razão nunca iria prevalecer em uma recaída, pedi para que o vício o respondesse por mim. Ele não respondeu, ele só queria existir dentro de mim e eu só queria consumi-lo até que nada mais restasse. Queria tê-lo para sempre, mas não em forma de abstinência. O cinza também coloria todo o caos que pairava sobre aquelas dúvidas. É o querer, o poder, mas o não dever. Um pouco de sensatez seria de grande valia em uma dessas discussões comigo mesma, mas eu era metade coração e outra metade vício.No fim de tudo, todas as promessas que eu havia feito para mim haviam caído por terra e eu permanecia parada em frente a um espelho, fumando um cigarro atrás do outro, espreitando a presença do vício em meus olhos, em todo meu corpo abstinente. Sabia que se cedesse por um breve momento ficaria sempre na vontade de mais. Vitium, minha falta. Sou metade vontade e outra metade falta.

quinta-feira, 8 de novembro de 2012

O dia em que me surpreendi com as mulheres.

Eu sempre fui uma grande apreciadora da dinâmica feminina; dos jogos de sedução, da inconsistência de promessas, dos flertes silenciosos e das incertezas dos momentos. Eu sabia muito bem lidar com tudo isso, a cada dia um novo drama, e por trás de cada drama diversas complicações. Mas eu me sentia tão cansada de esperar em cada relação a certeza de um caos, que eu evitava qualquer tipo de relacionamento que envolvesse mais de vinte minutos de conversa que pudesse gerar algum mal entendido e confundir-se com algo parecido com intimidade. Sempre me disseram que intimidade era uma merda; e eu só fui entender isso quando senti a cobrança que o intimo envolve. Antes eu só pensava intimidade como andar pelada pela casa sem que esse alguém achasse estranho, ou até mesmo propor algumas bizarrices no sexo sem que a pessoa se assustasse e te confundisse com um parafilo ou algo do tipo. Olha que surpresa, mais um daqueles dualismos; a intimidade tinha, também, dois polos. Mas foi evitando relações que me surpreendi com as mulheres; descobri que estava me relacionando com meninas. Não precisava ser tão complicado assim, me disseram. Mas a simplicidade me parecia tão chata, que me recusei a acreditar que todos aqueles meus nomes nas paredes eram apenas meninas brincando. E eram, e eu me cansara delas, finalmente. A cada persona, uma mulher. A cada mulher, uma surpresa. Elas tem cheiro de estrógeno, me disseram. Eu nunca soube o cheiro de estrógeno, mas percebia a mulher com atrativos irresistíveis. As meninas que brincavam eram alimentadas de muita ilusão. Acreditavam dizer tudo, apenas com o despir de um vestido. E ao querer satisfazer tudo, sucumbiam sob pena de não fazê-lo e nada satisfaziam, mantendo o vazio que, na necessidade de ser preenchido, se preenchia com inseguranças. Não é em qualquer esquina ou em qualquer bar que se acha mulheres, me disseram.

terça-feira, 30 de outubro de 2012

Apimentado.

Dizem que depois de toda tempestade vem uma calmaria, e de fato, ela chegara carregando as cores da primavera com um toque picante do verão. Aos poucos eu me reerguia e já voltava àquela velha rotina de cama em cama e de bar em bar. Mas quando o fim de semana começava a espreitar, eu colocava a mochila nas costas e deixava a cidade; era cruel aguentar todo o caos que o ócio da juventude trazia durante esses dias, todos ocupavam as ruas sedentos por novas experiencias, mas acabavam fazendo as mesmas coisas. Esse sentimento não era novo para mim. Eu estava me embriagando menos, talvez para evitar as complicações, mas ainda acordava em lugares desconhecidos ao lado de pessoas desconhecidas, mas isso não era algo que queria mudar, era a única sensação de novidade que me restava. Porém eu já não mais dizia: "olá, muito prazer" ou algo que o valha, não era prazer, era necessidade vital. Pensei em criar um novo jeito de me introduzir, que não fosse com uma baita de uma mentira, pensei em "olá, muita luxúria" quando fosse pertinente, mas logo desisti da ideia, por mera pressão popular. E lá estava eu, mais uma vez, inventando filosofias baratas para explicar minha decadência, mas a primavera havia trazido mais do que aquarelas, e eu nem tinha percebido.

quarta-feira, 19 de setembro de 2012

Tragédia Grega.

Esta era para ser uma carta de despedida, porém, ao longo das linhas e entrelinhas foi se tornando uma tragédia grega. Ao pensar no fado ao fim, lembrei-me do começo e como tudo parecia um conto de fadas, não poderia ser, nos contos de fadas todos vivem felizes para sempre. Ouvir isso era praticamente uma comédia para mim, tão desacreditada. O personagem de uma tragédia tentando salvar-se acaba condenando-se ao aniquilamento, e esta fui eu refletida no contexto de pontas de cigarros, garrafas vazias e promessas que caiam por terra. O meu oráculo foi o tempo, que me avisara que eu e ela não éramos para ser, desde o começo. Porém, na vontade de fugir dessa previsão assombrosa, eu buscava nela o que me faltava, e quase sem querer, achava muito facilmente. Ela era uma mulherzinha difícil de lidar e precisava que tudo fosse feito em seu tempo, ela também não sabia manter promessas, mas disso eu já sabia. Contudo eu sempre acabava nos braços dela falando algumas merdas sobre destino e coincidências. Mas as linhas dionisíacas estavam traçadas, e todos os pedaços que ali se mantinham já haviam sido emendados de outras peças que o fado do fim pregava em nós. Se estavam emendados, estavam mais suscetíveis a uma nova quebra. E foi de fato o que aconteceu, e não sobraram pedaços para serem colados mais uma vez. E não era eu que iria ficar na escadaria catando os pedaços, dessa vez, o aniquilamento estava completo. Não fui tão radical como Édipo, mas no final de tudo tornei-me cética. Olhar para aquela mulherzinha difícil me fez pensar que talvez eu não precisasse de todo esse drama na minha vida e que poderia ser mais fácil do que imaginável querer coisas simples: respeito, caráter e autenticidade. E eu tinha certeza que essa seria a última vez que escreveria para ela.

segunda-feira, 10 de setembro de 2012

Ampulheta.

Eu sempre tive uma estranha fixação com o tempo, e secretamente ironizava aqueles que se confortavam no poder que culturalmente o foi atribuído; o tempo que cura, o tempo que perdoa, o tempo que esquece. Porém, eu parecia experienciar um outro tipo temporal. E não era aquele em que fazia tudo parar em momentos lisérgicos. Era algo mais caótico, mais mortal; o tempo que adoecia e o tempo que destruía. Relações duradouras que se desgastavam e desapareciam, como a areia de uma ampulheta, se esvaindo no desespero de aproveitá-la ao máximo. Parecia que o tempo se recusava a manter relações. Tempo polivalente, tempos difíceis. Eu, como uma boa apreciadora dos sarcasmos, tentava ignorar boa parte das provocações que ele me fazia. Portanto, de tempos em tempos eu cedia ao adoecimento que ele me trazia; o corpo alcoolizado dava lugar a um coração doente e desacreditado, um poço niilista, para ser mais sensata. Ás vezes não adianta lutar contra e acusar as coincidências, o caos tem o seu lugar, por mais que tentamos evitá-lo, vem de tempo em tempo. O melhor que eu fazia era tomar algumas doses, escrever alguns poemas e me erguer em tempos de ressaca, e digo-lhe, era uma tarefa mais difícil do que esperar que ele curasse alguma coisa.

terça-feira, 24 de julho de 2012

A Dinâmica da Vodca.

Sempre me disseram que para beber vodca você tinha que ser forte. Prontamente me lembrei daqueles russos de quase dois metros de altura e especialmente daquelas russas em que eu precisava ficar na ponta do pé para beijá-las, e,  além disso elas poderiam me pegar no colo e me carregar por milhas, e não era culpa da vodca. Eu já tinha uma política diferente, e pensava que não era necessário beber vodca durante um dia inteiro, era apenas necessário beber até que se atingisse o auge; o entorpecimento da vodca. Para alguns, o ápice chegava com duas doses, mas para mim era preciso de mais cinco delas e lá estava eu, mais uma vez, correndo pelas ruas e falando besteiras, não do tipo de besteira que se diz quando entorpecida de cervejas. Eram besteiras sinceras, que você nunca teria coragem de dizer a ninguém enquanto caminhava  no horizonte da sobriedade. Eu falava sobre amores passados que ainda pulsavam em meu peito, falava sobre artimanhas sexuais  e ainda, sobre desejos soberbos que nunca haviam emergido antes.  E lá estava eu bêbada com doses de vodca pura, cowboy, mais uma, sei não.  
Eu adorava conhecer aqueles que se diziam grandes bebedores, eu os batia em duas ou três doses a mais. E eu não precisava ter dois metros para parecer forte, eu só tinha um e sessenta de altura, e ás vezes precisava andar nas pontas dos pés. Era fácil até o topo, eu aprendia e desaprendia a dançar em menos de duas horas, aprendia a conversar em outras línguas e acima de tudo aprendia a suportar a ignorância humana que tanto me incomodava durante momentos de redenção. Que se destile a vodca no meu corpo, o mundo parecia entorpecer ao dançar comigo, e no dia seguinte eu ainda teria a certeza de que de nada iria lembrar.