terça-feira, 22 de abril de 2008

Suburbia.

Era madrugada de um novembro tão chuvoso e tão gélido, que andar nas ruas a essa hora era quase impossível, todos as tentativas de movimentos congelavam em frações de segundos. Mas nós, crianças punks, incansáveis que somos, seguiamos uma trilha de neblina e fumaça de cigarros que sempre tendiam a dissipar-se quando mais precisavámos. Estávamos muito bêbadas para saber aonde ir, e lembrar o que estávamos fazendo. E todas as direções pareciam nos levar ao mesmo lugar. E já era tarde demais para crianças estarem brincando tão longe. Todos os shows já haviam acabado, mas ainda parecia muito cedo para voltar para casa. Sempre era cedo demais para voltar para casa. Fomos embaladas por uma canção do Morrison, que parecia que tinha sido feita especialmente para aquela noite. Os amplificadores gritavam, e nós gritávamos por eles. Beijos nos bastidores, flertes atrás das cortinas, o tempo nos ultrapassava e tudo o que precisávamos era de mais uma dose e mais uma música para sentir como se o mundo não fosse tão ruim assim.

segunda-feira, 14 de abril de 2008

Incerto.

Duas semanas de algum tipo de compromisso sério que ninguém conseguia explicar e a monogâmia começava a pesar, e ás vezes pesava tanto que me derrubava. E lá estava eu naquela mesma encruzilhada de sempre, sentada no meio-fio principal, fumando um cigarro e tentando decidir se eu ia ou não para a casa de uma dessas meninas que eu conhecia em meio a essas noites que nunca pareciam acabar. Talvez se eu conseguisse ficar sã por mais horas dos meus dias eu teria tomado melhores decisões nesses momentos. Mas certezas são para aqueles que precisam se manter no controle o tempo todo. Fraquezas. Não mantive o controle, apena evitei o descontrole por mais 2 semanas, e desabamos: eu, meu relacionamento e minha dignidade. Começou com uma amiga e ex-namorada de Jullie que ia no apartamento praticamente todos os dias e com ela lá nunca estávamos sóbrias, nem mesmo durante o sono. Apartir disso a minha encruzilhada se desfez e eu via apenas um caminho a seguir, se está no inferno, abraçe o capeta. E eu o fiz, no abraço mais destruitivo que eu poderia dar. Belle você é linda, mas monogâmia não é para mim.

domingo, 13 de abril de 2008

Contorno.

Sexta-feira, 6 horas da manhã e eu voltava para casa cambaleando, me recostando nos muros e me apoiando nas paredes numa tentativa de caminhada após mais uma noite corrompida de trabalho. Chegando nas escadarias do prédio, tentando achar minhas chaves do portão, que eu perdia em média uma vez por semana, pude notar alguém escorado e desmaiado bem na entrada. Eu só conseguia pensar no conforto da minha cama e tentei pular e passar por cima daquele ser infeliz que havia bloqueado minha passagem para o céu. Porém, devido ao meu grau de in-sobriedade tudo que eu consegui foi cair em meio à aquela tentativa falida. Cutuquei-a umas boas centenas de vezes e ela nem mexeu. Imaginei que talvez estivesse morta e resolvi chutá-la, primeiro de leve, afinal se realmente estivesse morta não iria fazer mal nenhum. Ela se mexeu, e aparentemente eu havia perdido a noção da minha força, porque depois eu fui ver o tamanho do roxo que eu deixei marcado. Ela lentamente foi abrindo os olhos, como se fosse a primeira vez. Era aquela ruiva maravilhosa, dela eu não havia me esquecido. Falei para ela se levantar e estiquei minhas mãos oferecendo ajuda, mas acabei caindo ao tentar puxá-la. Uma sequencia de risos antecedeu alguns segundos de silêncio, que pareceram infinitos. Ela parecia sóbria e eventualmente fui descobrir que ela estava sóbria, de fato, ela só gostava muito de dormir, e dormia aonde encostava, é uma arte. Ela me disse que havia chegado 3 horas da manhã alí na minha porta e ficou tocando o interfone por algumas horas. Jullie provavelmente estava em casa, mas ela nunca atendia o interfone, o telefone ou nem mesmo a campainha, nunca tinha condições para isso. Entrando em casa, Jullie se encontrava sem roupa, desmaiada no sofá. Eu falei para a ruiva não se importar, e ela não se importou, na verdade ela era adepta ao nudismo público no ápice da loucura, é uma arte. Ela passou dias lá em casa, e depois do segundo dia resolvi perguntar o nome dela, já estava ficando estranho eu contornando e inventando adjetivos para chamá-la. Belle, de bela, e de fato era. Depois de duas semanas me vi entrando em algum tipo de relacionamento menos casual e mais sério e isso me assustava.

- O que será de nós? - me perguntou nas primeiras horas do dia.
- Eu gosto de você. - respirei fundo e torci para a palavra "namoro" não vir à tona e contornei - Vamos ficar ficando. - continuei.
- Do tipo você só comigo e eu só com você? - disse ela acendendo um cigarro.
- É. - eu disse aliviada de pelo menos ter contornado e evitado o peso da palavra.
- Me parece ótimo. - ela sorriu, me deu um beijo e foi para a varanda acabar seu cigarro.

quinta-feira, 10 de abril de 2008

Redenção.

Foi em um desses dias que após 144 horas de isanidade ilícita, eu desabava. Era finalmente meu único dia de redenção, e tudo que eu precisava era de um dia inteiro em casa, sem nem mesmo colocar um cigarro na boca, ouvindo e sentindo o silêncio. Ás 15 horas da tarde, no auge na minha introspecção, Dih bateu, esmurrou e chutou a porta do apartamento, eu me arrastei da cama até a porta, buscando acreditar que era apenas um sonho. Ela usou de tuda sua insistência e persuação para me obrigar a ir até sua casa, para uma festa "imperdível", me deu algumas doses de anfetamina e fomos. Me diverti por algumas horas, mas naquele ponto nenhuma anfetamina, metanfetamina ou lisérgico iria me impedir de desabar. Entrei no quarto dela, que cheirava a nicotina e alcatrão, e me joguei na cama. Minutos depois, uma ruiva linda com cabelos longos entrou no quarto alegando que a Dih havia mandado-a lá. Eu mal conseguia abrir os olhos e assim que fechou a porta ela se ofuscou pela escuridão. Ela era tímida, e naquele ponto da minha sobriedade eu também era tímida. O silêncio rondou por minutos, eu queria fechar os olhos mas não conseguia, não com aquela beldade sentada na cama comigo. Assuntos foram surgindo aos poucos e a vontade de beijá-la foi ficando tão intensa que chegava a entorpecer. Entorpecida assim, na pausa entre respirações, beijei. Acordei no dia seguinte, e os braços dela me abraçavam. Fitei-a uma última vez, ela era mais bonita do que eu imaginava. Eu queria aquela menina para mim. Levantei, escrevi meu endereço na parede, por força do hábito.

Vamos repetir a dose.
Vou preparar a cama.
Apareça quando precisar de boas doses de endorfina.
Te vejo em breve,
Lorena.

02/10/1977

segunda-feira, 7 de abril de 2008

(L)ucy in the (S)ky with (D)iamonds.

Era uma dessas madrugadas de quintas-feiras entorpecentes, e eu trabalhava como uma condenada do(ao) inferno. O LSD queimava no meu corpo durante todo o expediente, e eu me divertia mais do que nunca nessas noites. As paredes derretiam, as pessoas distorciam e as notas musicais pairavam no vácuo. Eu piscava e divagava, tudo ficava mais devagar, como se eu tivesse um controle remoto e colocasse tudo em câmera lenta. Eu piscava e alisava o balcão, ele ia e voltava centenas de vezes em poucos segundos. Eu demorava de 2 a 3 minutos para começar a conseguir entender o que me pediam, mas a maioria das pessoas desistia de esperar no primeiro minuto, e eu me perdia mais uma vez naquele universo de raios e luzes. A conclusão foi que eu consegui servir 3 drinks durante toda a noite, efetivamente. Porém 2 deles não correspondiam ao que tinham me pedido. Em vez de uma cuba libre, eu só consegui chegar até a parte da vodca pura e em vez de um Bloody Mary, eu consegui apenas colocar poucas gotas de whisky, que causaram certa abstração, e parei para vê-las cair em lentidão particular. E depois disso, tudo o que consegui fazer foi bebê-las. Havia uma morena linda sentada no meu balcão levemente derretido, e ela com bastante intimidade, me convidou para um sexo casual. Pelo menos foi o que eu entendi, ou o que na verdade eu quis entender. Meu corpo queria, mas minha mente não dava condições. Fomos para a casa dela, e ao pegar na mão dela, pareceu como se sua pele houvesse se acoplado à minha. Naquele final de noite eu não fiz sexo, ela estava nua deitada na cama, e tudo o que eu precisei fazer foi explorar todas aquelas curvas perigosas com a mera ponta dos dedos, as texturas que se formavam eram viciantes. Foi o ápice do prazer insano para mim, o ápice do prazer carnal para ela. Quem precisa de sexo quando se tem LSD?

sexta-feira, 4 de abril de 2008

Di(h)sfarçe.

Dih foi uma das meninas que eu conheci naquele bar, aonde eu servia doses de alcóol etílico com essência de limão que disfaçava um drink chamado caipivodca. Rapidamente, aquela garota com sarnas na cara e um sorriso que cativava o mais frustrado dos junkies, tornou-se parte essencial da minha vida. Ela passava noites e noites no meu bar, de 7 a 8 vezes por semana, e só bebia até o ponto de discontrair nós duas. Ela discontraía. E a mais errada das minhas viajens, me parecia certa o suficiente, quando ela estava presente. Eu ria tanto que chegava a doer no âmago. Sem perceber, eu acabara de conseguir sustentar uma amizade por mais de algumas semana sem o benefício do sexo. Até então eu não conseguia acreditar(ou manter) algum tipo de relação saudável com alguém, sem que envolvesse os prazeres carnais. Ela morava em uma casa herdada de gerações em gerações da sua família, era uma casa enorme, que em menos de 2 mêses que ela havia se mudado pra lá, virou um antro neo-punk com festas que rendiam por semana a fio, até a polícia chegar e colocar todos para fora. A sanidade não existia(existe) nem nas palavras.

segunda-feira, 31 de março de 2008

Hermenêutica Particular.

Em um dos começos de manhã, chegando em casa depois de mais uma madrugada impetuosa de trabalho, com uma sobriedade que chegava até a assustar o mais sóbrio de todos os homens, não pude deixar de notar a nossa parede esquerda da sala. Como um piscar de olhos, ela havia sido coberta por recados e lembretes, que a esse ponto parecia uma obra de arte abstrata, com todo seu sentido particular. Em cima do móvel , a caneta estereográfica preta ficava a postos, em um lugar tão acessível que até esparramada no chão era possível pegá-la, por isso as notas no rodapé da parede, desconfio. Passando os olhos, frase a frase, li, reli e traduzi nosso universo em palavras. Havia de tudo e mais um pouco naquela, antes, gélida parede ignorada. Declarações de amor de garotas que eu nem lembrava o nome, ou pior, a fisionomia. Números de telefones, marcas de batom, lista de compras, lembretes de casa, avisos de saídas e chegadas, viajens resumidas em algumas tentativas de palavras, desenhos, piadas, rabiscos que algum dia devem ter feito sentido para alguém, tudo deve ter feito sentido para alguém, algum dia. Senti as entrelinhas, li a paixão e a loucura com que tudo fora escrito. Estavam em uma ordem maluca, sem padrões de datas ou de pessoas. Padrões eram para os fracos. Em uma das datas mais recentes, reconheci a letra de Jullie em um recado bastante inusitado:

Estamos sem filtro para o café, peguei sua meia.
Mas não se precupe, ela estava limpa, eu acho.
Goles de amor e whisky,
Jullie

01/09/1977

quinta-feira, 27 de março de 2008

Garota Tequila.

Foi no começo daquele Agosto chuvoso, quando a falta de dinheiro, de expectativas e de sobriedade me fizeram arrumar um emprego, salário mínimo e uma mesa de dança, em uma casa noturna que eu frequentava de 7 a 8 vezes por semana. Casa noturna era um apelido luxuoso, era apenas um buraco de esquina, que abria no começo da tarde e só fechava quando o último mortal sucumbisse lá dentro, o que em algumas noites não demorava muito para acontecer. O palco de 1 metro abrigava sonhos de 15 minutos de fama. E entre solos de rock'n roll e distorsões de punk-rock, eu servia Bloody-Mary com dose dupla de vodca à aquela legião de jovens com indentidade adulterada e modificada. A apenas alguns quarteirões do meu apartamento, que eu já tinha a audácia de chamar de lar, aquele buraco culminava de extâse(ecstasy), de drogas pesadas e de má sorte. Em uma das noites que eu me corrompia(e corrompia) trabalhando naquele bar, uma baterista promissora de uma banda decadente, sentou-se, apoiou-se no balcão e para a minha surpresa pediu algumas doses de tequila, as meninas dalí não costumavam a beber destilados puros. Era o intervalo entre duas bandas e os ruídos ensurdecedores tomavam conta do lugar. Ela virou uma dose. Pediu mais uma. Virou duas doses. Ela reluziu e eu quis ela na minha cama de imediato. Desafiei:

- Se eu beber mais doses do que você em 1 minuto, vamos para a minha casa. Se você beber mais doses do que eu em 1 minuto, vamos para a sua. Topa? - sorri, já colocando as doses em cada copo.

Ela sorriu de volta e começou a virar. 1, 2, 3...7 doses em 1 minuto.

- Se eu ganhar, vamos para minha casa e você vai fazer o que eu quizer. - disse com toda a convicção de uma vitória.

Sorri e começei a virar. 1, 2, 3...as coisas começaram a girar...6 doses em 1 minuto e bâbada no final. Ela esnobava, e eu gostava.




segunda-feira, 24 de março de 2008

Tabuada.

Era começo de tarde ensolarada de uma quinta-feira melancólica. Acordando, ou pelo menos tentando abrir os olhos, me flagrei esparramada naquele sofá corroído e roído. Tudo rodava a minha volta, uma, duas, cinco vezes. É, ainda estava bêbada mais uma vez. Me apoiei no braço do sofá e tentei me levantar, uma, duas, cinco vezes. É, pegar um cigarro nunca havia sido tão difícil. Em uma daquelas rotações da sala, pude notar Jullie desmaiada no chão da cozinha, semi nua, abraçando uma garrafa de destilado(que a essa altura, pela falta de dinheiro, era apena um destilado qualquer) e depois de uns cinco minutos gravitacionais, consegui me levantar e pegar um cigarro. Ao abrir a porta do meu quarto, me deparei com uma, duas...cinco pessoas dormindo na minha cama, pessoas estas que até então eu não lembrava de ter conhecido. Fechei a porta, e fiquei imaginando quantas poderiam haver no quarto de Jullie. Sapatos, meias, bitucas, copos, agulhas, garrafas, ruídos, risos,comprimidos. Somando cada um desses, poderia se contar uma legião. E se multiplicasse, poderia ainda haver uma nação de jovens sem futuro. Não quis somar, e muito menos multiplicar. Peguei o maço de cigarro, o resto do dinheiro que me restava, metade de uma das múltiplas garrafas que se encontravam esparramadas no chão da cozinha e escrevi um recado para Jullie(também esparramada no chão da cozinha, por sinal) na parede esquerda da sala, o primeiro lugar(e o primeiro lado) que ela olharia quando acordasse, caso ela não gravitasse como eu, claro.

Preciso de sexo. Volto quando o fizer(e lembrar de ter feito).
Não me espere para o jantar, café da manhã ou almoço.
Tragos de amor e whisky,
Lorena.

15/07/1977

domingo, 16 de março de 2008

Jullie

Jullie era uma garota com seus 16 para 17 anos, contruídos sobre uma inocência perdida. A primeira vez que eu a vi, tinha 2 dias que eu havia chegado naquela cidade infernal e eu vagava em busca de cigarros, destilados e punk-rock. Ela não era como as outras que se escondiam atrás de uma maquiagem mal feita. Nossos olhares se cruzaram entre entorpecentes e ceticismo, e pareceu como se o mundo houvesse parado para testemunhar aquele encontro auto-destruitivo. Os olhares ao se cruzarem abriram um universo próprio, sobre acordes de guitarras, sobre garrafas quebradas, sobre uma libertinagem surreal. Eu pedi um cigarro, ela pediu o fogo.

- O que você faz aqui? - perguntou.
- Não faço idéia. - respondi.
- Eu também não. - retrucou.

Com mais uma garrafa de whisky na mão, caminhamos a noite inteira e falamos merdas. E nas primeiras horas do amanhecer, estávamos no suburbio mais junkie que eu já havia visto. Em um apartamento aparentemente abandonado, em um prédio de portões maçisos e paredes pichadas, que tudo começou. Ela perguntou quanto eu tinha no bolso, e com algumas notas parcialmente rasgadas e amassadas e uma longa conversa com o homem do andar de baixo, o inquilino neurótico de esquina, conseguimos prolongar o tempo de aluguel daquele apartamento que cheirava a restos de cigarro, restos de anfetamina, restos de uma juventude. Da varanda, se podia ver a extensão de todo aquele suburbio periférico. Se existisse algum Deus no inferno, seria como agente se sentia, vendo tudo lá de cima, com nosso cigarro na mão. A pressa, as angústias, o medo, o desespero, a humanidade. Tudo redundante.