Cheguei em um ponto da minha vida onde, aos poucos, ia deixando de lado todos aqueles prazeres hedonistas. Passei a notar detalhes, expressões, percebia o que nunca havia sequer, me preocupado em perceber. Eu andava pelas ruas contando os passos obsessivos daqueles que tinham pressa, eu sorria com ações gratuitas; a bailarina que fazia malabares nos sinais e cativava com o olhar simples e talentoso, o mendigo que andava com dificuldade com as mãos abertas em busca de algum trocado e quando o conseguia esboçava um sorriso de lado, que mascarava, por alguns segundos, a tristeza que ali o rondava, havia também o moleque que entregava papeis nas ruas, de pés descalços, desejando a todos um bom dia. Parecia que eu havia me libertado de todo aquele individualismo que abrangia todos que ali passavam, vinha de repente uma vontade de sentar com eles e saber de suas vidas, aprender malabares, mais humildade, me libertar do peso dos sapatos que distinguiam tanto uns dos outros. Os prazeres eram diferentes, mas eu poderia sentir que a essência era a mesma, eu me identificava naquela calçada e todos os dias eu caminhava pelos mesmos lugares, observava até os grafites nas paredes, e um deles me encarava todos os dias dizendo: "nunca é tarde para mudar o tempo". Nunca é.
quarta-feira, 10 de agosto de 2011
terça-feira, 9 de agosto de 2011
Se Essas Paredes Falassem.
Certo dia quando cambaleava pela casa, me escorando nas paredes, lia de relance cada frase ali escrita, cada palavra, cada desabafo. E no rodapé de um canto repleto de vazio, um texto tímido espreitava, em giz negro, dentre todas aquelas palavras com cores e poéticas. Ele dizia:
"Eu tentei, não mais do que valia a pena, não menos do que meu orgulho me permitiu. Ouvi meias mentiras, falei meias verdades. Minhas verdades que omitem junto com suas mentiras que machucam. Eu não tentei mais do que deveria, não esperei menos do que ganhei. Afinal, já estava tudo escrito, não é mesmo? Se era pra ser destino, ele apenas acenou para nós. Por mais que eu te queria por perto, estava muito longe do real sentimento. Escrevo timidamente neste canto pois amanhã posso ter outros encantos. Quando o ler, poderá se identificar, se não, haverá outras poesias que farão mais sentido em qualquer outro lugar. Se as linhas parecerem tortas é devido ao meu estado, que pesar. É hora do ponto final, deixaremos as reticencias apenas para o passado.
Lorena
07/08"
quarta-feira, 3 de agosto de 2011
Mesmice.
De volta às noites de inverno daquela cidade que eu já poderia chamar de minha. Era a volta ao caos que a mesmice trazia, mesmo procurando novos lugares, eu sempre acabava com as mesmas histórias. Não tinha muito tempo que eu havia saído de um relacionamento e conclui que a melhor solução seria de conhecer novas pessoas.Tanto meus relacionamentos amorosos quanto os pessoais andavam de mal a pior e ás vezes eu sentava em pubs e iniciava conversas aleatórias com qualquer um, era o conforto da solidão. Ás vezes não necessitava nem de puxar alguma conversa, eu apenas trocava olhares, trocava sorrisos amarelos, entrava em algum banheiro com uma expressão convidativa, quase sempre dava certo e mais uma vez eu acordava em lugares desconhecidos ou não sabia como havia voltado para casa. Eram, ainda, as mesma histórias. Em uma dessas noites de mesmo fim, eu olhava intensamente para uma garota, sorrindo, flertando, ela notava, mas parecia não ter coragem para algum outro movimento, ou estava apenas assustada com aquela bebum à encarando. Depois de um tempo quando notei que não ia dar em nada, me levantei, com um grupo de pessoas que se sentava ali comigo e caminhava lentamente rumo a outro qualquer lugar. Ela me cutucou por trás e me entregou um papel com o endereço de um pub onde eu poderia achá-la mais tarde, eu sorri, a convidei para se perder comigo, mas ela insistiu que eu fosse para aquele pub no centro da cidade. Eu neguei e continuei meu caminho. Mais tarde, naquela mesma noite, após várias doses e discussões filosóficas, eu me flagrei com aquela vontade de aparecer, cambaleando, no pub do centro; e como eu nunca fui só de ficar na vontade, não hesitei em ir. Chegando lá, a esperei pacientemente e quando ela me espiou, ela soltou um sorriso e me atacou com avareza, ou seria luxúria, eu não saberia dizer. Não trocamos nem meias palavras, e ela me perguntava: "você costuma a fazer isso sempre?" - eu apenas respondia com sorrisos. No dia seguinte, eu acordei procurando respostas para aquela pergunta: não, não faço isso sempre.
quinta-feira, 21 de julho de 2011
Que Bella!
Após algumas horas de viagem e algumas confusões linguísticas eu já espiava as construções antigas daquela cidade que gritava por turistas em busca de boas lembranças. Eu não gostava de me sentir como um deles, mas de fato, eu precisava de boas lembranças para sobrepor aquelas velhas memórias de escadarias e bebedeiras. Ao descer do ônibus eu já pude sentir o calor daquele lugar, eu sentia que poderia acender um cigarro na refração daquele Sol. Uma velha amiga me esperava na estação, era uma das poucas pessoas que eu tinha saudade. Rumamos pelas estreitas ruas, entre vendedores de bugigangas e cantadas baratas chegamos a aquela portinha, que se tornaria meu maior conforto nas noites de solidão. Tudo que eu precisava naquele momento era de uma bebida alcoólica gelada e uma caminhada para ambientação. Já na praça principal, a alguns metros do apartamento, eu já havia me rendido ao primeiro bar que vi. A partir dai, só fui parar depois de uma semana. O Sol parecia nunca se pôr e eu vagava sozinha pela cidade aprendendo cantadas em outros idiomas, sabia que me serviria para algo. Eu já não sabia mais fazer as contas de quantas vezes havia me perdido ou errado a porta de casa. Ás vezes eu conseguia me entediar daquela multidão de todo canto do mundo e pegava um trem rumo ao litoral para meditar e desfrutar dos prazeres carnais, e que prazeres. Aquelas cantadas que eu havia aprendido caíram muito bem. Depois voltava para a cidade e me preparava para partir de vez, a ideia de voltar para casa me dava arrepios, mas era mais uma vez necessário. Deixava minhas saudades com aquela velha amiga, assim como um pouco de excessos. E lá estava eu na estrada novamente, para a pior parte do percusso; re-volta.
segunda-feira, 11 de julho de 2011
Rokin.
Mais um inverno chegava e era hora de cair na estrada novamente, eu havia juntado alguns trocados fazendo uns bicos pela cidade e eu já podia me ver cruzando oceanos. Lá estava eu mais uma vez com aquela velha mochila que cabia minha vida nas costas e a garrafa de whisky nas mãos. Eu sabia que era tempos de redenção e viajava sem qualquer preocupação do que ficava para trás, era hora de deixá-las para trás. Sumi mais uma vez, sem deixar ao menos um aviso nas paredes. E lá estava eu a milhas de distancia daquele inferno e tudo o que eu fazia era dar suspiros aliviados. Logo no primeiro dia eu já desbravava aquele lugar com um sentimento de familiaridade inacreditável. E mais inacreditável ainda foi encontrar com uma não tão velha conhecida, que parecia cruzar todos meus caminhos nas estradas afora. Nos juntamos para dias a fio de libertinagem; eu não saberia distinguir um dia do outro, mas saberia dizer o quanto foi libertador. Eu cambaleava pelas ruas iluminadas pelas luzes vermelhas, me esbarrava em vitrines que expunham belas jovens exportadas da América, sorria para elas, era tudo o que eu podia gastar. Eu estava reaprendendo a arte de flertar e acabava por me empolgar demais e acordava com alguns nomes no bolso. No dia seguinte, me confortava nas lembranças de outras pessoas sobre o resto de noite passada. Levantava com dificuldade e caminhava pelo caminho que já era um tanto quanto familiar, encontrava com aquela conhecida que me alimentava com alguns tragos de cannabis e seguíamos direto para algum pub para recomeçar de onde havíamos parado. Difícil seria sobreviver a uma vida ali, era hora de cruzar fronteiras e experimentar de outros lugares. Despedi daqueles que conheci, quanto àquela que eu já conhecia, eu sabia que nos cruzaríamos mais algumas vezes por ai. Coloquei a mochila nas costas, rumo ao sul aonde o Sol é Toscano.
quarta-feira, 8 de junho de 2011
Borderline.
Eu tinha um pedaço de mim que possuía instabilidade emocional, sempre se despedaçava por tempos em tempos. Me amava incondicionalmente em um dia e no outro se consumia de rancor, nem mesmo importava o que eu havia feito, os motivos eram sempre diferentes. Ás vezes eu saia pelas escadarias do velho edifício catando pedaços, ás vezes passava dias procurando, ela esvaia facilmente. Mas o sentimento de abandono batia rapidamente e refletia na campainha da minha porta. Trazia consigo problemas sem soluções para ocupar minha cabeça, tomar meu tempo e me consumir para sumir em alguns dias, me culpando pela falta de solução. Por mais passional que fosse a ilusão da saudade, passava em pouco tempo. Aquele pedaço se desprendia e arrumava outros corpos para passar os dias, para depois retornar buscando conforto de arrependimentos , sem culpa, me culpa. Entorpecida, dormia entre meus braços e acordava murmurando histórias passadas, dizendo que precisava de ir embora, tomava um café e acendia um filtro vermelho. Se confortava no sofá e voltava a murmurar sobre como nos fazíamos mal. Dizia que me ama, um beijo, tchau.
segunda-feira, 6 de junho de 2011
Escambo.
Minha vida seguia ao ritmo do blues, enquanto tudo desabava ao meu redor, eu viajava de norte a sul assobiando músicas que ficaram no passado. Naquele momento eu havia optado pela solidão. O problema de confiar nas pessoas é que não se deve confiar nas pessoas. Relações inter-pessoais já não eram um bom negócio naquela cidade e eu mantinha o mínimo de contato com o mínimo do que havia restado. Decepções me levaram ao desprendimento e não havia nada que poderia me manter ali. Com a mochila nas costas e uma garrafa em punhos, a caminhada pelo asfalto era longa. Conhecia uma meia dúzia de pessoas ao longo das estradas e passava noites em claro em festas de fraternidade que não tinham hora para acabar: "até o último homem em pé" diziam os cartazes pelas salas. E não demorava para acontecer, em menos de vinte e quatro horas não havia mais ninguém para contar história, nem eu, logo, não contarei. Ao final do fim de semana, me via obrigada a voltar para juntar mais alguns trocados para as próximas estradas. Existia em pensamentos existenciais, seria o preço da liberdade? Minha liberdade por alguns trocados. Eu troco.
segunda-feira, 23 de maio de 2011
Bodas de Nada.
Chegava o fim do outono para levar consigo o fim de um relacionamento, a queda das folhas, secas, representavam aquele nosso último momento; entre um desmaio e outro, quando eu nem havia ainda conseguido ficar sóbria, foram poucas palavras e muito silêncio e no fim nos senti desconhecidas, e foi a ultima vez que senti. Porém, quando toda calmaria anuncia uma tempestade, eu pegava carona com os ventos de fim de outono, que levavam as folhas, anunciando o gélido inverno cinza. Naquela mesma noite eu esquecia de tudo em um porre comemorativo, era noite de festa na cidade, e eu me perdia mais uma vez, cada vez mais distante. Ao pensar no que a semana traria, eu não tinha nenhuma intenção de manter a dignidade e a postura que nunca mantive, passei dia a dia de cama em cama e não me recordo de um sequer momento de sanidade. Quando me dei por mim, depois de todos aqueles dias que desapareceram, vi que tudo o que tinha restado eram nossas músicas em um toca-fitas; elas ainda estavam tocando.
segunda-feira, 9 de maio de 2011
Montanha Russa.
Meu caro Johnny costumava a dizer que apaixonar-se era como cair em um circulo de fogo, onde você conseqüentemente e certamente iria se queimar. E eu sempre acreditei nele, pois até os mais tolos sabiam que cair de amores por alguém poderia resultar em uma queda muito alta. E por ironia, foi a primeira música que cantei para ela, esquecendo-me dos perigo das chamas crescentes. Mas na verdade eu já não ligava mais, eu já havia passado horas me embebedando e desenvolvendo teorias para aquele relacionamento que eu tinha construído com ela por até então, um bom tempo. Após doses e mais doses de vodca, filosofia, nicotina e (bom) senso, consegui elaborar a teoria da montanha russa. E por tamanho clichê que possa parecer, fez um incrível sentido para mim na hora. A maioria das pessoas quando pensa em montanha russa associa-se à adrenalina, de fato é, mas eu associei, em um nível mais profundo, à insegurança. A adrenalina é produzida, na maioria das vezes, pelo medo (que é nada menos que uma insegurança). E há pelo menos um momento do percurso que você imagina que algo pode dar errado; seu cinto não está seguro o suficiente, o carrinho está fazendo um barulho estranho, o que acontecerá depois da queda? É quando você se segura firme no primeiro lugar que você acha, qualquer, só para certificar-se da segurança. Eis o começo do relacionamento junto com as "fugidinhas". Então chega a parte do looping, onde seus pés ficam fora do chão e nada é constante, você não sabe a velocidade e tão pouco o tamanho da curva, mas está com a adrenalina a mil e sabe que não tem jeito de voltar atrás, e nem quer. É a melhor parte, compensa pagar mais uma vez para sentir. Depois, tem aquela freada brusca, que você nunca esperava naquele ponto. Por inércia, seu corpo continua para frente, mas volta de uma vez. Mais uma garantia de segurança. A pior parte dessa freada é que ela muitas vezes engana, e faz achar que está perto do final, mas na maioria das vezes, mantém a estabilidade do carrinho para mais uns loopings. Ainda não consegui finalizar a teoria da montanha russa, talvez preciso de mais um tempo, de mais algumas doses, de mais alguns meses de convivência com ela, mas por enquanto, se encaixa bem no que tenho de definição do meu relacionamento; Após a freada, voltamos ao começo, como se nos desafiávamos para mais uma volta, e iámos sem hesitar. Mais algumas doses, por favor.
terça-feira, 29 de março de 2011
P (r) onto.
Era nosso último dia ali e a escassez de dinheiro, cigarros e dignidade começava a gritar. Porém ainda tínhamos uma dúzia de garrafas de destilados e afrodisíacos, se era o necessário para esquecer a escassez, beberemos. As gotas de alcool pareciam evaporar em meio à todos aqueles sedentos pelo último dia, últimos goles. Lembrei, em um flash, de ter falado a ela mais cedo:
-Hey, não vamos desmaiar hoje.
Mas havia me esquecido da resposta. Eu a fitava com uma garrafa na mão, trocávamos olhares de desejo, ela também tinha uma garrafa na mão. Sem que ninguém percebesse ela entrou no quarto, quase deixando um convite para mim. Entrei. Nenhuma de nós duas soltou as respectivas garrafas. A joguei na cama e nos envolvemos com tal intimidade que adormecia até a ponta dos meus dedos. Nos misturávamos no suor, nos lençóis e no afrodisíaco, que a essa altura já coloria toda a cama. Sentávamos, falávamos algumas besteiras, ela falava algumas besteiras enquanto eu desenhava todo seu corpo em meus dedos. Colocava uma roupa mais ou menos, saia do quarto, pegava mais uma garrafa e voltava. Quando começava a amanhecer nos lembramos das noites que passávamos juntas quando nos conhecemos, com essa mesma intimidade, naquele lugar tão longe dalí. Havia tanto tempo que não fazíamos isso. Eu perguntei qual tipo de relacionamento tínhamos, ela não soube responder, tão pouco quanto eu. Naquele momento pensei o tanto ela me fazia bem e o quanto a queria por muito mais tempo. Ela tinha uma teoria sobre continuarmos fazendo apostas de quanto mais duraríamos, talvez assim, por alguma razão que fez sentido na cabeça dela, superaríamos as expectativas de apostas ou as nossas próprias. Mas avisei prontamente que só apostaria se ela pagasse, como não havia feito das últimas vezes. Aposta?
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