Eu sempre fui uma grande apreciadora da dinâmica feminina; dos jogos de sedução, da inconsistência de promessas, dos flertes silenciosos e das incertezas dos momentos. Eu sabia muito bem lidar com tudo isso, a cada dia um novo drama, e por trás de cada drama diversas complicações. Mas eu me sentia tão cansada de esperar em cada relação a certeza de um caos, que eu evitava qualquer tipo de relacionamento que envolvesse mais de vinte minutos de conversa que pudesse gerar algum mal entendido e confundir-se com algo parecido com intimidade. Sempre me disseram que intimidade era uma merda; e eu só fui entender isso quando senti a cobrança que o intimo envolve. Antes eu só pensava intimidade como andar pelada pela casa sem que esse alguém achasse estranho, ou até mesmo propor algumas bizarrices no sexo sem que a pessoa se assustasse e te confundisse com um parafilo ou algo do tipo. Olha que surpresa, mais um daqueles dualismos; a intimidade tinha, também, dois polos. Mas foi evitando relações que me surpreendi com as mulheres; descobri que estava me relacionando com meninas. Não precisava ser tão complicado assim, me disseram. Mas a simplicidade me parecia tão chata, que me recusei a acreditar que todos aqueles meus nomes nas paredes eram apenas meninas brincando. E eram, e eu me cansara delas, finalmente. A cada persona, uma mulher. A cada mulher, uma surpresa. Elas tem cheiro de estrógeno, me disseram. Eu nunca soube o cheiro de estrógeno, mas percebia a mulher com atrativos irresistíveis. As meninas que brincavam eram alimentadas de muita ilusão. Acreditavam dizer tudo, apenas com o despir de um vestido. E ao querer satisfazer tudo, sucumbiam sob pena de não fazê-lo e nada satisfaziam, mantendo o vazio que, na necessidade de ser preenchido, se preenchia com inseguranças. Não é em qualquer esquina ou em qualquer bar que se acha mulheres, me disseram.
quinta-feira, 8 de novembro de 2012
terça-feira, 30 de outubro de 2012
Apimentado.
Dizem que depois de toda tempestade vem uma calmaria, e de fato, ela chegara carregando as cores da primavera com um toque picante do verão. Aos poucos eu me reerguia e já voltava àquela velha rotina de cama em cama e de bar em bar. Mas quando o fim de semana começava a espreitar, eu colocava a mochila nas costas e deixava a cidade; era cruel aguentar todo o caos que o ócio da juventude trazia durante esses dias, todos ocupavam as ruas sedentos por novas experiencias, mas acabavam fazendo as mesmas coisas. Esse sentimento não era novo para mim. Eu estava me embriagando menos, talvez para evitar as complicações, mas ainda acordava em lugares desconhecidos ao lado de pessoas desconhecidas, mas isso não era algo que queria mudar, era a única sensação de novidade que me restava. Porém eu já não mais dizia: "olá, muito prazer" ou algo que o valha, não era prazer, era necessidade vital. Pensei em criar um novo jeito de me introduzir, que não fosse com uma baita de uma mentira, pensei em "olá, muita luxúria" quando fosse pertinente, mas logo desisti da ideia, por mera pressão popular. E lá estava eu, mais uma vez, inventando filosofias baratas para explicar minha decadência, mas a primavera havia trazido mais do que aquarelas, e eu nem tinha percebido.
quarta-feira, 19 de setembro de 2012
Tragédia Grega.
Esta era para ser uma carta de despedida, porém, ao longo das linhas e entrelinhas foi se tornando uma tragédia grega. Ao pensar no fado ao fim, lembrei-me do começo e como tudo parecia um conto de fadas, não poderia ser, nos contos de fadas todos vivem felizes para sempre. Ouvir isso era praticamente uma comédia para mim, tão desacreditada. O personagem de uma tragédia tentando salvar-se acaba condenando-se ao aniquilamento, e esta fui eu refletida no contexto de pontas de cigarros, garrafas vazias e promessas que caiam por terra. O meu oráculo foi o tempo, que me avisara que eu e ela não éramos para ser, desde o começo. Porém, na vontade de fugir dessa previsão assombrosa, eu buscava nela o que me faltava, e quase sem querer, achava muito facilmente. Ela era uma mulherzinha difícil de lidar e precisava que tudo fosse feito em seu tempo, ela também não sabia manter promessas, mas disso eu já sabia. Contudo eu sempre acabava nos braços dela falando algumas merdas sobre destino e coincidências. Mas as linhas dionisíacas estavam traçadas, e todos os pedaços que ali se mantinham já haviam sido emendados de outras peças que o fado do fim pregava em nós. Se estavam emendados, estavam mais suscetíveis a uma nova quebra. E foi de fato o que aconteceu, e não sobraram pedaços para serem colados mais uma vez. E não era eu que iria ficar na escadaria catando os pedaços, dessa vez, o aniquilamento estava completo. Não fui tão radical como Édipo, mas no final de tudo tornei-me cética. Olhar para aquela mulherzinha difícil me fez pensar que talvez eu não precisasse de todo esse drama na minha vida e que poderia ser mais fácil do que imaginável querer coisas simples: respeito, caráter e autenticidade. E eu tinha certeza que essa seria a última vez que escreveria para ela.
segunda-feira, 10 de setembro de 2012
Ampulheta.
Eu sempre tive uma estranha fixação com o tempo, e secretamente ironizava aqueles que se confortavam no poder que culturalmente o foi atribuído; o tempo que cura, o tempo que perdoa, o tempo que esquece. Porém, eu parecia experienciar um outro tipo temporal. E não era aquele em que fazia tudo parar em momentos lisérgicos. Era algo mais caótico, mais mortal; o tempo que adoecia e o tempo que destruía. Relações duradouras que se desgastavam e desapareciam, como a areia de uma ampulheta, se esvaindo no desespero de aproveitá-la ao máximo. Parecia que o tempo se recusava a manter relações. Tempo polivalente, tempos difíceis. Eu, como uma boa apreciadora dos sarcasmos, tentava ignorar boa parte das provocações que ele me fazia. Portanto, de tempos em tempos eu cedia ao adoecimento que ele me trazia; o corpo alcoolizado dava lugar a um coração doente e desacreditado, um poço niilista, para ser mais sensata. Ás vezes não adianta lutar contra e acusar as coincidências, o caos tem o seu lugar, por mais que tentamos evitá-lo, vem de tempo em tempo. O melhor que eu fazia era tomar algumas doses, escrever alguns poemas e me erguer em tempos de ressaca, e digo-lhe, era uma tarefa mais difícil do que esperar que ele curasse alguma coisa.
terça-feira, 24 de julho de 2012
A Dinâmica da Vodca.
Sempre me disseram que para beber vodca você tinha que ser
forte. Prontamente me lembrei daqueles russos de quase dois metros de altura e
especialmente daquelas russas em que eu precisava ficar na ponta do pé para
beijá-las, e, além disso elas poderiam
me pegar no colo e me carregar por milhas, e não era culpa da vodca. Eu já
tinha uma política diferente, e pensava que não era necessário beber vodca
durante um dia inteiro, era apenas necessário beber até que se atingisse o
auge; o entorpecimento da vodca. Para alguns, o ápice chegava com duas doses, mas
para mim era preciso de mais cinco delas e lá estava eu, mais uma vez, correndo
pelas ruas e falando besteiras, não do tipo de besteira que se diz quando
entorpecida de cervejas. Eram besteiras sinceras, que você nunca teria coragem
de dizer a ninguém enquanto caminhava no
horizonte da sobriedade. Eu falava sobre amores passados que ainda pulsavam em
meu peito, falava sobre artimanhas sexuais
e ainda, sobre desejos soberbos que nunca haviam emergido antes. E lá estava eu bêbada com doses de vodca
pura, cowboy, mais uma, sei não.
Eu adorava conhecer
aqueles que se diziam grandes bebedores, eu os batia em duas ou três doses a
mais. E eu não precisava ter dois metros para parecer forte, eu só tinha um e
sessenta de altura, e ás vezes precisava andar nas pontas dos pés. Era fácil
até o topo, eu aprendia e desaprendia a dançar em menos de duas horas, aprendia
a conversar em outras línguas e acima de tudo aprendia a suportar a ignorância humana
que tanto me incomodava durante momentos de redenção. Que se destile a vodca
no meu corpo, o mundo parecia entorpecer ao dançar comigo, e no dia seguinte eu
ainda teria a certeza de que de nada iria lembrar.
quarta-feira, 11 de abril de 2012
Tom Waits.
Eu tentaria não usar clichês para descrever essa história, porém, eles respondem exatamente o que tanto questionamos, em vão, à filosofias profundas. Procurava palavras certas pra descrever tudo que acontecera em trinta e seis horas, mas elas não existiam em nenhum dicionário de nenhuma língua ou nem mesmo em nenhum livro de kama sutra. Poderia até começar com "era uma vez" para enfatizar quão mágico foi, porém preferi simplificar em uma catarse de sentimentos. Na volta de mais uma das minhas viagens eu havia escrito na última página do meu diário:
"O apelido dela já remetia a um vício, um dos meus preferidos, daqueles que fazem os olhos brilharem e o corpo suar. Havíamos esperado sete anos para a certeza de um encontro; esperar e esperar, estávamos destinadas a isso. A fitei com seus cabelos loiros de longe, acendi um cigarro para disfarçar a ansiedade e a abordei como se já fossemos intimas há tempos. No cumprimentamos, ainda que timidamente esboçávamos conversas de alívio de toda aquela ansiedade do encontro. Nos dirigimos ao bar mais próximo, catalisador social, eu precisava de uma boa dose de alguma coisa. E com apenas alguns minutos de conversa eu já sentia uma conexão incrível, indescritível, esqueça. Tudo o que eu queria naquele momento era lascar-lhe um beijo e aproveitar aquele nosso pouco tempo ao máximo. Porém não o fiz, não por timidez, mas por insegurança da reciprocidade. Após algumas horas de conversa voltamos ao quarto aonde eu me hospedava na Cidade de Cinzas. Fumamos, falamos, rimos, ela fumou. Não me aguentei e a beijei, por sorte, com reciprocidade. Depois disso as horas pareciam voar. Nossa rota parecia ser cama, janela, chuveiro e espelho. Nada além disso. Parecia que já fazíamos isso a muito tempo, e por algum motivo não conseguíamos parar de trepar, de nos tocar, de tirar e colocar nossas roupas. Toda vez que ela simulava ir embora, eu a segurava e a convencia de que ainda não era hora. Ela fumou, dormimos. E no dia seguinte tudo começava de novo, de novas formas, de novos ângulos. Multiplicidade de tudo. Quando a noite ia caindo, nos despedíamos com pesar, com tesão, com sentimentos que havíamos combinado que não poderiam existir. Existiram, ficaram."
A Negação da Condição Existencial.
O tempo na cidade me fazia esquecer dos meus textos, das poesias fugazes e das filosofias baratas. As horas me consumiam com pensamentos ansiosos, a bebida corroía meu estômago, meu corpo e minha mente. O prazer da embriaguez, aos poucos se transformava em pânico da ressaca. Latência; era o que me fazia acordar bem e querer acender a ponta de um cigarro, em ocasiões quase raras. Eu encarava os olhares nas ruas com medo, os passos apressados me faziam não querer sair de casa, apenas deitar na cama e esperar que aquilo tudo passasse, apressaram-se. As pessoas começavam a se preocupar com minhas reações de pânico e pareciam não acreditar que para toda ação existe uma consequência. Foi quando em uma conversa de bar, um mero conhecido me apresentou ao, que viria a ser meu novo melhor amigo, o Senhor Rivotril. Bença aos benzodiazepínicos, eu diria! A partir desse dia eu o levava para onde quer que fosse, como um amuleto, e de fato era. A ansiedade dava lugar a algumas gotas de prazer e todo aquele pavor social desaparecia , assim como os passos e as faces gananciosas que me fitavam pelas ruas. Pode parecer delirante, mas não; eu havia voltado a produzir no silêncio da madrugada e voltava, ao poucos, a aceitar a rotina que tanto me perturbava. Eu havia experienciado um conflito existencial que me levou a exaustão e tudo que o meu novo melhor amigo fazia era me reinserir de forma sutil ao circuito social que tanto prezam. Por um lado eu me sentia muito bem por conseguir voltar a fumar um cigarro inteiro e a beber com o prazer de saber que no dia seguinte eu não me sentiria tão isolada. Foram dois meses do inferno ao céu, e no fim de todo esse sufoco, tudo o que eu queria era reencontrar algumas pessoas, dar uma boa trepada, e esquecer de tudo o que se passara.
"As ilusões humanas provam que os homens não merecem nada melhor do que o esquecimento."
segunda-feira, 23 de janeiro de 2012
Ao Brinde.
Era minhas últimas vinte e quatro horas no litoral e eu me embriagava em uma daquelas festas quentes e insanas da hospedaria. Naquele ponto eu já me relacionava muito bem com todos e flertava uma morena linda que somente aparecera naquela noite. Ela tinha pose de mulher vivida e já conhecia todos ali presentes. Sob efeitos de álcool e THC, me apresentei de prontidão. Ela era nativa do paraíso e falava com um sotaque que eu poderia ouvir a noite inteira, e de fato, o ouvi. Havia achado um novo vício instantâneo. Era o verão do amor como costumavam a dizer durante os brindes da casa, apesar de que eu gostaria de chamá-lo de verão da paixão de um dia. Começamos a nos entender desde a primeira palavra dita, depois disso, foram indas e vindas ao banheiro, onde passávamos quase o resto da madrugada como adolescentes, nos escondendo de tudo e de todos no sossego atrás das portas do sanitário feminino. O sol começava a nascer e uma de nós tinha que trabalhar, e não era eu. Nos despedimos como se não fossemos nos ver nunca mais. Mas o dia ainda era longo e eu partiria só no fim da noite. Após um cochilo para recuperar da embriaguez, voltei à praia e por lá permaneci até o pôr do sol, quando voltava para a hospedaria com o pesar da partida. Até hoje não me acostumei com esses momentos, por mais comuns que fossem na minha vida. Faltava três horas para eu partir e lá estava ela, me pegando pelo braço e me levando até a casa dela, em mais uma daquelas fugidinhas adolescentes. E durante essas ultimas horas nos despedimos mais uma vez, dessa vez com a certeza de que não nos veríamos mais tão cedo. E lá se foram as vinte e quatro horas mais rápidas do meu verão naquele ano. E mais uma vez eu estava em direção à cidade, e cada vez meu corpo voltava com mais pesar.
Um Paraíso e um Jazz.
Todos os acontecimentos que vinham se dando em minha vida me levavam mais uma vez à estrada, dessa vez em direção ao litoral. Eu já sabia que depois de todo caos vinha a calmaria e eu seguia rumo a ela. Os ventos sopravam em minha nuca e me diziam para não olhar para trás. Não demorou muito para que eu chegasse ao meu destino e a sentir uma paz que acalentava a alma, acendia o primeiro cigarro do dia e percebia todos aquelas decepções desaparecerem com a maré. Eu já fazia piadas e me entretinha com os faróis das balsas que se cruzavam entre as ilhas. Andava mais um pouco e chegava à uma hospedaria onde haviam pessoas de todos os tipos que me recebiam com cannabis e doses de whisky; sim, eu colecionava paraísos. Era a primeira noite e eu já sentia que seria muito difícil ir embora daquele lugar. Mas meu tempo era curto e sabia que tinha que aproveitar tudo ao máximo, então passava o dia inteiro meditando nas praias, até certa hora, quando decidia comprar uma dose de qualquer coisa e decretar o começo da noite. Funcionava muito bem. Na hospedaria havia festas intermináveis, onde todos se juntavam para ouvir um jazz e para compartilhar histórias do mundo, era um intercâmbio de conhecimentos profanos. E sentia que a cada dia que passava eu me re-conhecia também; a arte da fuga não era tão ruim assim.
Uma História de Goya.
Quando eu parava para pensar no tempo, eu me lembrava da velha imagem de Chronos devorando seu próprio filho; tempo como criador, tempo como aniquilador, tempo subjetivo, tempo arte. Eu passava por uma fase da minha vida onde precisava reavaliavar conceitos, pois havia deixado a auto-estima de lado. Era tempo de perdas e ganhos. O meu circulo social antes tão sólido, ia caindo em ruínas, haviam os pedaços que poderiam ser colados de volta, mas a maioria estava desperdiçado. Desperdício de tempo. Eu sempre senti que precisava de coisas mais reais do que elas realmente eram, os personagens do conto de fadas se rebelavam, enfim. Nem tudo era tão bonito quanto nas histórias, por trás de toda máscara ainda havia a persona. E por trás dessa persona eu buscava o caráter, e nem sempre o achei. Tempo de perdas, era fácil abrir mão desses. Era como o desapego segundo o budismo; desapegar de um para que se possa abrir possibilidades para um outro. A perda para o ganho. E assim o fui fazendo, aos poucos, de consciência limpa. Era tempo de comprar uma tinta branca e cobrir toda aquela parede que colecionava nomes, até mesmo aqueles que não queriam apagar. Os que eu quisesse guardar, estariam comigo em qualquer tempo e não somente em uma coleção. O tempo não é reciproco, é o mais temido de todos predadores, inverso edipiano.
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