segunda-feira, 7 de junho de 2010
Por fora.
Com uma uma mochila surrada e alguns trocados no bolso entrei no primeiro ônibus que passou pela rodovia, em direção a lugar nenhum. Eu não sabia muito bem aonde chegaria, nem mesmo a que rota pertencia, e depois de duas horas, desci em um posto de gasolina onde pessoas iam e vinham o tempo todo, era muita humanidade para aquele momento de misantropia. Comprei uma garrafa de whisky e caminhei algumas milhas ao longo da estrada, onde, entrei, mais uma vez, no primeiro ônibus que passou. Eu já tinha meus destilados e meus livros anti-qualquer coisa, e não me importava com direções. Quando entediava, eu simplismente descia do ônibus e entrava em outro, até que me entediei de fazer isso e finalmente chegava a algum lugar. O sol aparecia no horizonte e ao descer do ônibus eu senti o frio subindo pelas minhas espinhas. É, eu definitivamente não estava mais naquele inferno. Apenas sorri, não precisava saber aonde estava. Coloquei minha mochila nas costas, acendi um cigarro que mal consegui fumar sem que minhas mãos congelassem. Andei um pouco e já conseguia ver certo movimento, mas sem toda aquela intensidade que eu havia me acostumado. Passei por uma praça onde experiencei a diversidade concentrada, haviam aqueles que liam, aqueles que cantavam, aqueles que rezavam, aqueles que beijavam, aqueles que pediram e aqueles que cederam. Era exatamente aonde eu deveria estar naquele momento. Sentei-me ao lado de uma garota que lia Allan Poe, ele me olhou de relance, e introduzi me apresentando. Ah, maldita rotina! Mas por ironia, ela não havia entendido uma única palavra do que eu disse, não por eu estar inqualificavelmente bêbada, mas por ela não ser dalí. Ou melhor, era exatamente eu que não era dalí. Foi quando percebi o quão longe estava de casa, então fiz uma aposta com meu próprio ego, eu já pagava para ver.
sábado, 29 de maio de 2010
Uma canção de despedida.
Por desapego, me livrei de tudo que tinha e por livrar-me, consegui me sentir livre o suficiente para sair daquele lugar por um tempo. Sem dizer uma sequer palavra, eu colocava tudo aquilo que ainda me restava em uma mochila: alguns pedaços de roupas, pedaços de sentimentos, pedaços de saudades. E por alguns segundos eu conseguia sentir a presença de todos aqueles que eu conheci alí, implorando para que eu não desaparecesse. E por alguns segundos, eu quis não desaparecer. Havia uma garota, que sempre se deitava comigo e que, brincando, eu sabia que iria sentir falta dela. Eu conseguia sentí-la se importando. Brincamos por quase um ano, e enquanto todas passavam, ela ficava pacientemente. O que mais me intrigava era, que depois de todo aquele tempo ela ainda conseguia gostar de mim. Bom, nunca me achei uma pessoa para se gostar por mais de alguns mêses, eu estava sempre envolta em caos, incertezas e insanidades. Mas por algum motivo que o universo desconhece, ela estava alí, e eu iria sentir falta de acordar naquele meu velho mau humor matinal, ao lado dela. Deixava em uma mesa de bar, meu adeus. Não foi bem do jeito que eu queria fazê-lo, mas por circunstancias duvidosas, o fiz, bem superficial. Então, deixei minhas saudades com ela, ela poderia sentir.
quarta-feira, 10 de março de 2010
Desapego.
Andava errante pelas noites da cidade, vagava passante, rodava devagar. Havia encontrado, em meios caminhos andados, um templo budista, onde passei a frequentar quase todos os dias, nas primeiras horas de sanidade, pois era necessário estar um pouco sã para buscar uma paz, que até então, não havia encontrado naquele lugar. Eu entrava por uma estreita porta com escritos que eu não conseguia compreender, em passo a passo eu tirava meu tênis, meu maço, minhas chaves e meu cantil transbordado de destilado, os deixava. Sentava no fino acolchoado de frente para uma estátua indiana que brilhava mais que o Sol que nascia lá fora. Em menos de alguns minutos eu já trasncendia, aceitava todas as mutações que mudavam a cada segundo, e simplismente, aceitava e sentia. Era meu momento de redenção. Saia de lá, cada vez com menos preocupações, e eu que já não me apegava tanto, me desapeguei completamente de tudo. A cada vez que eu chegava em casa, me livrava de algo que havia guardado, até mesmo sentimentos, encantos e desencantos. Não era uma questão de desinteresse, nem de indiferença, como costumava a ser antes, era algo que gerava uma liberdade da qual nunca havia experimentado antes, era a liberdade de permitir que as coisas passasem, era a iluminação necessária para os vagabundos daquele inferno, ou a menos, para mim. Lembrava sempre que um hábito não é uma necessidade, os deixava.
terça-feira, 23 de fevereiro de 2010
Aquela que sempre ia embora.
Por algumas semanas a fio, me engraçei com uma certa morena radiante, que eu havia conhecido em ocasião que não conseguia me recordar, mas sabia que de alguma forma já a tinha notado algumas vezes, ela já havia passado por mim e até mesmo sentado em mesmas mesas de bar para trocar doses de destilados. Tinhamos alguns conhecidos em comum e depois de alguns dias acabei me encantando por ela. Caminhávamos por aquele centro nublado e todas aquelas pessoas que passavam com pressa ao nosso redor, não nos apressava. Começamos com casualidades, ela não costumava a demonstrar muito interesse e nossos interesses em comum eram entorpecentes e sexo, parecia a combinação perfeita. Mas fomos mais além, ela me encantava de um jeito que eu não conseguia acreditar, e eu ainda era adepta ao recalque. Quando nos encontrávamos, até o resto de cocaina parecia tentador, ou era apenas culpa dos excessos, mas eu já não ligava mais para o que era excessivo. Mas os riscos eram falhos, tanto quanto eu. Eu não queria deixá-la, mas ela tinha pressa ao amanhecer, desaparecia como cinzas de cigarro barato, e eu a pensava durante quase todo o resto do dia. Talvez ela não me aturasse durante muito tempo, e eu ainda era adepta ao silêncio. Eu sentava naquele sofá, buscava as doses que ainda me restavam e a esperava voltar, mas ela nem sempre o fazia. Sinta vontade de ficar.
quinta-feira, 18 de fevereiro de 2010
Quando elas não queriam ir embora.
Enfim eu havia superado todo meu ceticismo e desilusões corriqueiras e aos poucos conseguia me re-erguer, eu dividia a maior parte do meu tempo entre bares e minha casa. Ia para qualquer bar com cadeiras tortas, paredes tortas, sorrisos tortos, bebia doses e mais doses de qualquer coisa e acabava cambaleando para casa com alguém entre meus braços, era aquela velha história de sempre, e eu estava sempre muito entorpecida para lembrar. A cada dia que passava eu acordava ao lado de uma garota diferente: loira, morena, ruiva, careca, rosa-choque e por aí vai...Ao primeiro abrir de olhos eu tentava me perguntar como elas haviam parado alí, mas após um tempo parei de questionar esses acontecimentos, eram muito frequentes e só tomava mais meu tempo pensar nisso. Após uns breves minutos de silêncio, eu, com enorme esforço, me levantava daquela cama e as deixava dormindo alí, eu olhava para as paredes de meu quarto e via rabiscos, nomes, desenhos, telefones, endereços, o problema era só identificá-los, raras as ocasiões que consegui. Eu cambaleava até a sala, sentava no meu velho companheiro sofá e acendia um cigarro, ás vezes esbarrava em Jullie fazendo a mesma coisa. Neste tempo eu havia adquirido um péssimo hábito de acordar cedo, e ás vezes, esperava horas até que as garotas acordassem. Eu as fitava do meu sofá, rodeada de cinzas e fumaça que pairava no meu silêncio, elas me olhavam como crianças que secretamente olham para as mães em busca de aprovação e eu continuava lá pairada, parada, sobre o silêncio. Elas costumavam a rondar pelo apartamento, fumar alguns cigarros, propor umas doses de bebida, bom, isso eu já não conseguia negar. E ficavam. Ficavam. Ficavam. Jullie soltava risos sarcásticos em direção a elas, mas ninguém alí parecia se incomodar. O apartamento confortava, ou era apenas vontade de ficar. Quando eu já não mais aguentava, pegava meu maço de cigarros amassados, dizia que ia comprar mais, e só voltava no dia seguinte. Não tenha pressa.
quinta-feira, 26 de novembro de 2009
Rua das Dez-ilusões.
Eu já passava a maioria dos meus dias sentada no velho sofá azul da sala, transbordado de restos de cinzas e um peculiar cheiro de vodca podre. Pelo apartamento só restava o vazio, aquelas paredes que me rodeavam pareciam gritar por atenção, mas eu não queira antendê-las. Eu podia sentir seus passos pela casa, mas já não podia sentíl-la mais, ela se fora. Ás vezes eu me levantava e dava uma volta pela rua das ilusões, era para lá que eu ia quando precisava de alguma coisa momentânea para acreditar, anjos, demônios, humanos. Mas acabava voltando ao velho sofá e não pensava, apenas me perdia em últimas gotas de whisky. Ouvia mais uma vez os passos, ela passava por mim, invisível, e tudo acelerava. Em pouco tempo seriamos meras desconhecidas em busca da redenção. Mas eu ainda podia sentir o coração dela acelerar em sintonia, é, mais uma volta pela rua das ilusões, eu poderia passar mais tempo por lá. Até o momento eu não saberia dizer a sintonia certa, éramos uma combinação intensa de auto-destruição e (im)pulsões, meu passa-tempo favorito. Eu me ocupava com devaneios e anfetaminas, apenas não conseguia esperar a hora certa em que tudo ia voltar a acelerar, se voltasse. Pela rua das ilusões, eu procurava o que havia restado, quando achava, corria para casa para poder guardá-lo, e guardei, e restou, mas ela já não mais se importava. Consuma até que não reste nada.
quinta-feira, 15 de outubro de 2009
Sen (ter) tido.
Hoje eu me machuquei mais uma vez, eu queria ver se eu ainda conseguia sentir. Procurava sentido em tudo que nunca fez, nunca precisou. O que entorpece, não saciava. Mais uma dose de Dylan, por favor. Meu império de caos sucumbia a meus pensamentos humanos, pensamentos de santos e demônios. São pensamentos quebrados que já não podiam ser consertados. De repente, eu começava a questionar meu universo de dúvidas e incertezas. Mais uma picada, por favor. A dor torna tudo mais real. Todo sintoma de ilusão é alimento para uma nova viagem, e eu me perguntava se seria aquela a minha ilusão ou minha viagem. Mas sempre preferi acreditar que era meu real. Acendia um cigarro atrás do outro e fitava a garrafa de whisky vazia, queria naquele momento largar tudo e recomeçar, talvez, em um outro inferno, mas a fuga não mudaria o que eu não sentia. Mais uns tragos de sentido, por favor.
domingo, 20 de setembro de 2009
Círculo de fogo.
- Mostre-me o caminho do bar mais próximo - foram as primeiras palavras dela ao acordar do meu lado, em um desses dias que o Sol ainda espreitava nas cinzas do céu.
Eu já não precisava de mais nada, ela apenas suspirava no meu ouvido, e eu já não queria mais sair daquela cama. Só por mais aquele momento, só por mais aquele eterno. Ela vivia me confundindo com certezas e incertezas que incendiavam. Como eu já estava cansada de saber, o maior defeito humano é fantasiar demais, e eu apenas me deixava levar pelo real, ela era real. Eu podia sentí-la sem fazer nenhum esforço. E aquele quarto abafado que transbordava alcool e nicotina, já parecia o melhor lugar do mundo. Acendiámos um cigarro de filtro vermelho e dávamos um gole na garrafa de whisky vazia, era a maldita força do hábito. E sem que percebessemos, estávamos alí de novo. Cura as abstinências, cura as ilusões. Ela era do tipo que atraia o caos, e conseguia se enrolar mais do que eu, eis aí a vantagem de brincar com fogo. Menina, suspire aqui comigo só por mais essa noite.
Eu já não precisava de mais nada, ela apenas suspirava no meu ouvido, e eu já não queria mais sair daquela cama. Só por mais aquele momento, só por mais aquele eterno. Ela vivia me confundindo com certezas e incertezas que incendiavam. Como eu já estava cansada de saber, o maior defeito humano é fantasiar demais, e eu apenas me deixava levar pelo real, ela era real. Eu podia sentí-la sem fazer nenhum esforço. E aquele quarto abafado que transbordava alcool e nicotina, já parecia o melhor lugar do mundo. Acendiámos um cigarro de filtro vermelho e dávamos um gole na garrafa de whisky vazia, era a maldita força do hábito. E sem que percebessemos, estávamos alí de novo. Cura as abstinências, cura as ilusões. Ela era do tipo que atraia o caos, e conseguia se enrolar mais do que eu, eis aí a vantagem de brincar com fogo. Menina, suspire aqui comigo só por mais essa noite.
segunda-feira, 14 de setembro de 2009
Mel.
Os primeiros raios de luz do Sol impactavam com os ultimos raios na cocaína e lá estava eu mais uma vez, nos velhos clichês de sempre. E o vício da rotina já me cansava. Eu me sentava em alguma calçada que contemplava o que restou do fim de uma noite, quando chegaram algumas pessoas, também contampladas por aquela calçada, suja e sacana, como tudo que é bom. Sentaram-se, e entre conversas tortas, alguma coisa se endireitou. É clichê dizer que havia uma menina que encantava, mas encantou, mais do que a maioria das outras. E em um diálogo repleto de destinos que disfarçavam as coincidências, já tinhámos feito planos para dias próximos, e sem que percebessemos, aquelas mesmas coicidências pareciam estar virando destino. Destilados, fermentados e lisérgicos conduziam nossos seguintes dias, seguiu-se, se nas insanidades estamos, nas insanidades continuaremos. Clichê. Mas ela tinha um olhar que acelerava, nada clichê, ela era o impacto que eu tanto tentara evitar. Não evitei, foi como um furacão. E em poucos dias, eu só conseguia pensar na deliciosa combinação de destilados, acelerantes e ela, que já acelerava. E mesmo que o dia acabasse, eu voltaria atrás se ela me pedisse, e por apenas aquela noite, eu ficaria mais um tempo. Menina vou te guardar comigo.
quinta-feira, 27 de agosto de 2009
Leste.
Os faróis apontavam para o amanhecer e foi pelas sombras daquelas ruas que nos reencontramos. A minha canção materializada preferida, bárbara. Ela carregava um livro, debaixo dos braços, que falava sobre prostitutas e drogas, quanto a mim, eu carregava minha eterna garrafa de whisky barato. Estávamos na esquina certa, estávamos na intensidade certa. Eu já nem me importava mais com as depressões que as mudanças traziam. Ela sorria e vinha andando em minha direção, ela tinha uma fala mole, culpe as marihuanas escondidas em seu bolso. Trocamos algumas palavras, eu precisava ter certeza de que ela se lembrara de mim. As ironias começavam a aparecer. Nunca fui de ficar procurando pessoas, mas com ela, eu precisava, ela já me tinha feito cair em apenas algumas poucas horas. Ela não me dava muitas certezas, mas que se dane! A dúvida é apaixonante. Ela se mantinha a uma distância casual, casualidades costumavam a me cansar, mas não dessa vez. E eu começava a ter a impressão de que eu já a conhecia melhor do que ela fingia. Andamos a passos que se arrastavam até as escadarias do meu prédio, sentamos e eu ainda tentava enteder aqueles velhos casos sem finais, em vão. Após alguns goles no whisky, eu a fitei como se fosse a nossa última vez alí, ela como se estivesse lendo meus pensamentos, misturou um trago com um gole, e me disse:
- Querer não é poder, meu bem. - levantou-se, despediu-se com um beijo bem perto dos meus lábios e foi em direção ao nascer do Sol.
Bom, a vantagem de brincar com fogo, é que aprende-se a não se queimar. Eu tinha certeza que ainda a veria de novo por essas esquinas certas.
- Querer não é poder, meu bem. - levantou-se, despediu-se com um beijo bem perto dos meus lábios e foi em direção ao nascer do Sol.
Bom, a vantagem de brincar com fogo, é que aprende-se a não se queimar. Eu tinha certeza que ainda a veria de novo por essas esquinas certas.
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